DÁRIO por Alice Caetano

DÁRIO, O AFINADOR DE JANELAS  – Por Alice Caetano

#2 “JANELAS COM MÚSICA”

Dário olha para as janelas da cidade à hora do pôr-do-sol e vê que estão tristes. A aproximação do Outono já vem vestindo as janelas de amarelo-torrado. As pessoas olham as vidraças que seguram esse reflexo e a tristeza passa a viver no seu olhar.

É preciso resolver este assunto, não vá a tristeza instalar-se de vez.

Então, Dário constrói espanta-espíritos para pendurar nas janelas da sua cidade e, assim, a música nascida vai embalar os fins de tarde melancólicos que chegam com a aragem de oeste.

Se os espanta espíritos forem feitos de bambu, cada corrente de ar que passar pelos seus tubos, vai espalhar boas vibrações. São as melodias do mensageiro dos ventos que se penduram nos caixilhos das janelas e o ambiente fica harmonioso.

Se os espanta espíritos forem feitos de conchas da praia, cada corrente de ar que passar pelas suas friestas, afasta todos os demónios e traz a coragem própria da água do mar. Assim, as pessoas gostam ainda mais de recordar o mar.

Se os espanta espíritos forem feitos de búzios, cada corrente de ar que atravessar o seu bocal assobia uma bênção de fertilidade. Os búzios são mágicos com asas de anjo guardião, sempre na berma dos caminhos diurnos e noturnos.

Se os espanta espíritos forem feitos de metal, cada corrente de ar que passar pelos orifícios dos sinos, vai dizer que a amizade não será quebradiça, nem fraca. Tilintam melodias e abraços.

Se os espanta espíritos forem feitos de vidro, cada corrente de ar que empurrar um pingente contra outro pingente, fará uma doce alquimia de brilhos sonoros que se seguram nas cortinas das janelas.

Dário conhece bem os habitantes da sua cidade e escolhe criteriosamente cada mensageiro dos ventos que pendura em cada janela.

As pessoas da cidade agradecem a Dário pela musicalidade que a cidade agora tem. É uma sinfonia feita de vento e de materiais pendurados, como colares de fantasia ao pescoço das janelas!

#01 JANELAS ABERTAS

– A janela deverá estar sempre aberta, quando ficamos em casa diz Dário, o afinador de janelas.
É por causa do sol. O sol não se contenta em estar apenas pendurado a iluminar os campos, as cidades e o mar. O sol também gosta de iluminar o interior das casas. Os espelhos pendurados nas paredes, acolcha florida da cama e os sapatos na prateleira do corredor gostam muito de sol.
Ah! E também é por causa dos cheiros. Os cheiros não querem apenas sobrevoar os campos, as cidades e o mar. Os cheiros também gostam de entrar nos quartos e nas salas, especialmente o cheiro do bolo de avelã da casa da vizinha ou o cheiro do trigo acabado de ceifar na seara. Na cidade das janelas, Dário percorre uma a uma todas as janelas, verificando se as dobradiças necessitam de limpeza com o seu pano de flanela ou de serem lubrificadas com massa consistente. Quando termina, senta-se no muro do castelo a olhar a cidade. Que bonitas estão todas as casas com as janelas abertas. Algumas poderão não estar abertas porque as pessoas foram trabalhar, no entanto, de certeza que as vão abrir, quando chegarem a casa.
Ser afinador de janelas é uma profissão entusiasmante.
Quantos velhinhos solitários esperam a chegada do afinador de janelas durante todo o tempo que dura um dia e uma noite, só para terem um pedacinho de conversa?!
Mas há algumas questões pertinentes sobre este costume:

– E quando está a chover, Dário?

– Ora, se a chuva for muito forte, fecham-se as janelas e, logo que passe a tempestade, já se podem voltar a abrir, nem que seja uma nesga.

– E quando neva e está um frio de morrer, Dário?

– Bem, abrem-se as janelas dentro do pensamento.

– E se aparecer um ladrão, Dário?

– Então, diz-se ao ladrão que lá em casa existe um quarto sem janelas, onde ele será fechado à chave até à eternidade.
Dário tem sempre uma resposta pronta em defesa das janelas abertas. São as janelas que, através das suas mãos, diariamente se transformam nas musas poéticas da cidade.